Dos Sonhos - Parte 2
Por: Rafael Nunes
08/09/2009
Coluna nº 4 do site Papo Sério
"Ultimamente tem se passado muitos anos". - Rubem Braga
Acontece sempre.
Ainda nos achamos num ponto difuso entre a infância e a morte, e os olhos, fechados, impedem - ainda que toscamente - a emboscada; não há por quês, não há motivos: os sonhos são sangue, eletricidade, moléculas, são O inevitável. Numa cidade vazia de ruas vazias pode-se tudo, pode-se muito, desde que não haja distrações. Acontece sempre.
Aconteceu hoje.
Num bonde cheio de pernas havia uma menina de olhos castanhos; numa esquina, em frente ao puteiro, ao Vaticano, dois pequenos gorilas, dois filhotes-gorilas, brincavam com um olho-de-cão; não havia controle, mas sentia-se paz. Então choveu. Entendi o momento, numa epifania de Clarice, e calei. Por mais que ansiasse não podia esquecer, e minha mente era o centro de tudo, lapidando frases, condensando dias, fabricando cores. Entender é em parte enlouquecer.
Enlouqueci.
Busquei refúgio em memórias, e as encontrei distorcidas; minha infância era então uma velha folha de um velho caderno, amassada, molhada e transformada pelo tempo. Mas qual o problema?
É preciso sentir para saber-se vivo; sentir com os olhos, com a língua, com a pele; sentir com o estômago, com o sexo, com a dor. O real se perde nesse turbilhão sensorial, e é tanto quanto uma maçã num mundo só de maçãs. Não há problema, e há a angústia de não haver problema. E há a dúvida sobre a angústia, e então é a queda.
Cai apenas quem não pode voar. Todos sabemos, pode-se tudo se não houver distrações.
Um mundo em todo-cinza traz detalhes antes despercebidos, e sutilezes demandam paciência. Não acorde agora.
Não
         acorde
                      agora!
É a sua vontade que dá vida ao processo, e ele então corre por si, ele escolhe por si o caminho, o destino, a paisagem.
Não tema o que não pode controlar.

